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MEIO-JOGO



O MEIO-JOGO

O meio-jogo é a fase de transição entre a abertura e o final de partida. Normalmente consideramos os 10-15 primeiros lances como sendo a abertura, e logo após temos o meio-jogo. Na abertura, procuramos desenvolver nossas peças convenientemente e protegemos nosso rei, através do roque. Logo depois, temos um problema a resolver : "Como devo continuar ? Como devo jogar ?" Estas perguntas são típicas do meio-jogo. Logo após a abertura, devemos ter um plano de jogo. Para exemplificar a necessidade de se jogar baseado num plano, posso afirmar que se você tem vantagem logo após a abertura, mas joga de qualquer jeito, sem plano algum, sua vantagem pode se transformar logo em poeira, e você pode perder a partida em que tinha vantagem.

COMO PLANEJAR O JOGO?
Segundo o GM e professor Ludek Pachman, "esta questão nos conduz ao domínio mais difícil e complicado do jogo de Xadrez." Primeiramente, é importante destacar que em nenhum caso os planos estratégicos podem ser escolhidos livremente. Normalmente, somente um plano corresponde a determinada posição. Para escolher o plano estratégico de uma determinada posição, devemos considerar alguns fatores:

1º Como estão colocadas as nossas peças e as do adversário ?
Devido a nossa vantagem de desenvolvimento, nossas peças poderão obter uma vantagem em alguma parte do tabuleiro ?
2º A estrutura de peões:
Temos maioria em alguma das alas, ou algum peão débil que possa ser explorado ? Existe alguma vantagem ou fraqueza na nossa posição ou na do adversário ? Quem tem vantagem em espaço ?
3º A segurança dos Reis:
A posição do nosso rei ou do rei adversário está segura ou exposta? O rei não ficará desprotegido por um avanço de peões?
4º A passagem ao final nos será favorável ou desfavorável ?
5º Como está o material?
Alguém tem vantagem?

Podemos constatar que alguns destes fatores são passageiros e outros permanentes. Um bom desenvolvimento de peças é um fator passageiro, pois estas peças podem ser forçadas a ocupar casas menos favoráveis.
Já um rei exposto ou um peão isolado são normalmente fatores permanentes.
Os fatores permanentes são geralmente mais importantes do que os fatores passageiros. O principiante normalmente julga que só depende dele atacar ou não; contudo, não é assim. Um ataque, para ter sucesso, necessita de algumas premissas, como por exemplo algum tipo de superioridade. O antigo campeão do mundo , Emmanuel Lasker, formulou quatro regras que ainda hoje são válidas e cuja aplicação nos permite decidir se devemos realizar um ataque ou se, pelo contrário, devemos nos defender.

1º Em circunstâncias normais, a partida encontra-se sempre em equilíbrio;
2º Só podem ser empreendidos ataques diretos se este equilíbrio for rompido, como por exemplo um erro do adversário ou a escolha de um plano estratégico incorreto, mas nunca antes.
3º Como regra geral, o ataque deve ser conduzido contra os pontos fracos do adversário e nunca contra os pontos fortes.
4º A defesa deve ser econômica, não deve imobilizar na defensiva mais peças do que o necessário.
Para exemplificar, eu vou expor a análise de algumas posições de partidas:


Botvinnik x Vidmar
Nothingam , 1936
Abertura Gambito da Dama Recusado


1. d4 d5 2. c4
As brancas oferecem momentaneamente um peão a troco de mais espaço e possibilidades de um rápido desenvolvimento.

2... e6 3. Cf3 Cf6 4. Cc3 Be7

As brancas desenvolveram seus dois cavalos na terceira casa, de onde dominam o centro e não interferem no desenvolvimento das outras peças. As pretas optam por desenvolver sua ala do rei rapidamente, com a idéia de rocar e proteger seu rei. Se as pretas jogassem agora 4. ... dxc4, as brancas responderiam com 5. e3 e depois tomariam o peão de c4 com seu bispo.

5. Bg5 0-0 6. e3 Cbd7 7. Bd3 c5
É importante para as pretas fazerem este lance, com o objetivo de garantir mais espaço para manobrar, além de combater o centro das brancas.

8. 0-0 cxd4 9. exd4 dxc4 10. Bxc4 (D)

Vamos analisar a partir deste ponto a posição, a fim de estabelecer o plano correto para as brancas e para as pretas. Para isso, devemos prestar atenção em alguns pontos :
1º Ponto: Como está o material?
Analisando esta posição e contando as peças restantes veremos que o material está igual.

2º Ponto: Como está a segurança dos reis?
isto também pode determinar o plano de jogo, pois um rei desprotegido pode ser motivo de ataque. No caso da partida, ambos os reis estão bem protegidos, portanto igual.

3º Ponto: Quem tem maior mobilidade das peças?
Esta questão determina se você desenvolveu bem suas peças, situando-as em pontos onde elas podem vir a atuar. Nesta posição, notamos que o cavalo de d7 das pretas estaria melhor situado em c6, onde exerceria maior pressão no centro adversário e deixaria vaga a casa d7 para o bispo, que encontra-se ainda em sua casa inicial. Notemos também que as brancas têm maior facilidade para centralizar suas torres. Conclusão da análise : As brancas têm ligeira superioridade neste fator.

4º Ponto: Como está a estrutura de peões?
Este geralmente é o ponto chave para a escolha e execução de um plano. Na partida, vemos que as brancas têm um peão isolado (d4), isto é, um peão que não pode ser defendido por nenhum peão. Este peão pode se tornar vulnerável ao ataque das peças adversárias, mas, por outro lado, este peão pode favorecer um ataque ao rei adversário. Eu considero esta estrutura típica como equilibrada, isto é, oferece chances a ambos os jogadores.

5º Ponto: Quem tem mais espaço?
Ao responder a 4ª questão, você saberá automaticamente a resposta da 5ª. Já sabemos que as brancas possuem um peão isolado na quarta casa (d4) , dominando importantes casas adversárias ( c5 e e5 ) e ajudando a restringir o mobilidade do bispo de c8, pois o peão de d4 não permite por enquanto que o peão negro de e6 avance para e5, abrindo espaço para o bispo atuar. Eu avalio como pequena vantagem a favor das brancas.

Concluída a análise e avaliação da posição, passamos à próxima fase - formulação do plano.

A avaliação nos mostrou que as brancas têm pequena vantagem e devem atacar. Nas próximas jogadas, cada jogador deve tentar melhorar sua posição com base na análise que foi feita.
Voltemos à partida :

10. ... Cb6
As pretas procuram melhorar a posição do seu cavalo, levando-o à casa d5. Quando se joga contra o peão isolado, devemos mantê-lo sempre sob cuidados, de preferência devemos bloqueá-lo com uma peça, a fim de não permitirmos que ele avance, ao mesmo tempo em que constatamos que uma peça colocada à frente de um peão isolado não pode ser expulsa por peão. Outro plano seria tentar avançar os peões da ala da dama, começando com 10. ... a6, com idéia de b5 e se 11. a4, as pretas teriam a casa b4 para suas peças operarem.

11. Bb3 Bd7 12. Dd3
Este lance tem o objetivo de seguir com Bc2, atacando o ponto fraco h7 das pretas.

12. ... Cbd5 ?!
As pretas estão sendo atacadas. Uma forma eficaz de se diminuir a força de um ataque é trocando peças. Era melhor 12. ... Cfd5 13. Be3 (Se 13. Bc2 g6, com idéia de Cb4, ganhando o par de bispos ) 13. ... Cxc3 14. bxc3 Ba4 15. c4 e as brancas ainda teriam pequena vantagem, mas, como a estrutura de peões foi modificada, teriam que analisar novamente a posição e definir um novo plano.

13. Ce5 Bc6 14. Tad1 Cb4 15. Dh3
Vejamos nesta posição os avanços que cada lado conseguiu: As brancas: Transferiram o cavalo para e5 e a dama para h3, utilizando estas duas peças para o ataque ao rei. Seguirão exercendo pressão com o plano de f4-f5, abrindo a coluna f e também aumentando a diagonal de ataque do bispo de b3. As pretas: Fizeram o plano correto de bloqueio do peão de d5, mas da forma errada. Deveriam procurar trocar peças para então pressionar o ponto d4.

15. ... Bd5
As pretas corrigem seu plano equivocado procurando trocar os bispos.

16. Cxd5 Cbxd5?!
Novamente errado. O correto era 16. ... Cfxd5 e após 17. Bc1 Tc8 as pretas se defenderiam das ameaças mais diretas das brancas.

17. f4 Tc8
Se as pretas procurassem evitar o avanço f5 com 17. ... g6, seguiria 18. Bh6 Te8 19. Ba4 ganhando a qualidade.

18. f5 exf5
Outra idéia é 18. ... Dd6 19. fxe6 fxe6 e apesar da debilidade do peão de e6, as pretas poderiam sustentar a posição.

19. Txf5 Dd6? (D)
Este erro permite uma linda combinação !

20. Cxf7! Txf7
Se 20. ... Rxf7 21. Bxd5+ +-.

21. Bxf6 Bxf6
Se 21. ... Txf6 22. Txf6 Bxf6 23. Dxc8+ e notamos porque o lance 19. ... Dd6 é fraco. A torre de c8 está desprotegida. E, após um cálculo exato, as brancas se aproveitaram deste fator tático.

22. Txd5 Dc6 23. Td6 De8
Em caso de 23. ... Dxd6 24. Dxc8+ Df8 25. Dxf8+ Rxf8 26. Bxf7+ +-, com qualidade e peão a mais.

24. Td7 (1- 0)
E as pretas abandonaram, pois a torre está perdida.

Lembre-se: Para executar corretamente um plano de jogo, devemos utilizar o cálculo de variantes. Na partida, Botvinnik planejou e executou um ataque ao rei inimigo, dirigindo suas peças para a ala do rei, porém só concretizou o ataque através de um golpe tático cuidadosamente calculado.

No próximo artigo, mais partidas comentadas. Não perca!


Rodrigo Teodoro
editor de Xadrez Barbarense



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