04OUT2005
Cool kids never have the time
Garota, eu não vou para Califórnia, vou para Curitiba.
Eu comprei meu ingresso no último dia. Não, espere, deixe-me escrever melhor: comprei o ingresso no último dos dias em que foi possível fazê-lo pela internet. O problema de usufruir de todo esse conforto é pagar taxas e mais taxas: taxa de serviço do site que disponibiliza e comercializa os ingressos, taxa do serviço de entrega expressa entre dois estados etc.
Mas comprei. Isso a quase um mês do Curitiba Rock Festival. Estava, portanto, me programando com antecedência. No meu caso, com uma antecedência quase infinita. E não é que, na semana do festival, me ligam intimando a fazer trabalho extra em dois lugares diferentes? Um deles me ligou no dia da viagem!
- Impossível, eu vou para Curitiba.
- Não tem como cancelar?
- Não.
- Você tem que arrumar alguém para te substituir, então.
- Eu faria isso se tivesse sido avisado antes. Agora, não vai dar.
O segundo trabalho seria em Santos, começando na segunda e terminando no domingo. Não costumo recusar trabalho, e então comecei a esquematizar como ir de Curitiba direto para Santos. Ir de carro, passar em São Paulo, pegar uns amigos, descer dirigindo, voltar logo em seguida ao show, deixar a galera em SP, descer para Santos. Haja Red Bull. Vou, então, de bus. A necessidade de estar em Santos na segunda-feira, aí pela hora do almoço, me faria perder o show do Mercury Rev. Poah, mas ir pra Curitiba e ficar um dia é sacanagem.
Curitiba-SP e SP-Santos, a solução. Horários Curitiba-SP na segunda: 0h20 e 6h00. 0h20? Pelamordedeus não! Negocio e recebo permissão de chegar em Santos um pouco antes da coisa toda começar - a previsão era 16h. Tudo resolvido, é só pegar a estrada.
Fui a Curitiba pela primeira vez em 1991 e fiquei totalmente encantando com a cidade. Na época não havia ônibus direto daqui para lá, era preciso embarcar em Campinas. Em 2000 já havia bus direto, da Itapemirim. Já em 2004, ano passado, em que fui para Curitiba pelo mesmo motivo que iria agora em 2005 - ver show -, as facilidades ao consumidor já haviam ido pro ralo. Nada de linhas curtas mais. Aliás, pode reparar, tudo, TUDO ficou pior para o consumidor nos últimos tempos. A linha era Rio Claro-Erechim. Erechim, no Rio Grande do Sul!! Rio Grande do Sul!! Dessa vez, a linha foi Sorocaba-Curitiba. Acho estranho, já que Americana fica antes, o que levaria o veículo a fazer uma pequena volta no percurso.
Poizé, a coisa começou a desandar já na viagem. Um caminho de oito horas acabou em doze, DOZE! A Transfada, empresa responsável pela linha e agora já devida e merecidamente batizada de Transfoda, foi comprada por uma outra
companhia, a Expresso do Nordeste, se não me engano, e passou a fazer o Norte do Paraná. Sério mesmo, eu devo ter sido a única pessoa que subiu em Americana e desceu em Curitiba. O busa parou em 200 rodoviárias, sempre com gente subindo e gente descendo. Um pinga-pinga violento! E o mais inacreditável: após cinco horas de viagem, na parada em Capão Bonito - terra do folclórico Citadini, dirigente corintiano -, não me agüentando mais de sede peço ao motorista para descer e comprar água.
- Fica tranqüilo, aqui são 15min de parada para todo mundo.
A tal parada foi numa rodoviária... bem, nem preciso falar nada: aposto que,
dos poucos que já ouviram falar em Capão Bonito, quase nenhum já esteve lá. A
rodoviária tem UMA lanchonete, e estou sendo imensamente gentil em classificar o local como tal. Eu lá, bebendo um Gatorade na tranqüilidade, quando o dono, em conversa com outro passageiro, solta essa:
- E só tem essa parada!
Cara, eu quase morri. Como assim? A única parada seria aquela? Naquele
muquifo? Esses caras querem matar os passageiros? Já garanti a minha
sobrevivência comprando duas garrafinhas d'água, um achocolatado e um Laka.
Voltei pro busa. Quase uma da matina, tripulação renovada, seguimos viagem.
Pode olhar no mapa. Nem procure por Americana, provavelmente não vai ter, mas traçando uma linha reta entre Sorocaba e Curitiba qualquer um vai se
impressionar e ficar de queixo caído ao saber que o 'meu' ônibus passou por
Ponta Grossa-PR. Para não dizer que só falei de espinhos, o 'carro', que é
como os trabalhadores do ramo chamam os ônibus, era legal e, dentro das
possibilidades, confortável. Ninguém ousou dividir poltrona comigo, de modo
de que pude me ajeitar de uma forma que me permitiu dormir algumas horas. Ah, sim, a dor no pescoço posterior foi inevitável, mas tudo bem. Antes das sete
da matina a viação Transfoda nos insere na cidade de Curitiba.
Ninguém vive sem lembranças, coloca isso na sua cabeça. As de minhas idas
anteriores começaram a ganhar vida na minha memória, e, num ato extremo de
goiabice, confesso que abri um enorme sorriso. É bom estar outra vez em
Curitiba: tempo fechado, chuvisco, táxis alaranjados, mulherada high level.
Na rodoferroviária (o que acabou me lembrando de Brasília, outra cidade que
adoro), o martírio chegara ao fim: desembarquei são e salvo. Uma das minhas
malas era infinitamente grande, então procurei o guarda-volumes da
rodoviária, tomei um pingado com um pão de queijo. Deve ser a idade chegando, não consigo mais gostar de salgadinho ou pão de queijo de lanchonete. Esse
tipo de iguaria tem que vir daquele local específico e já predileto. Só com a
mochila em mãos, pego as ruas de Curitiba em busca de pouso.
Ando um pouco e
percebo uma avenida conhecida. Visconde de Guarapuava, o nome. Sim, me
hospedei num hotel dessa avenida na penúltima visita à cidade. Reencontro o
hotel.
- Bom-dia. Qual o preço do quarto?
- R$36,00... - responde o atendente. Ótimo preço, nem vou ficar tanto no
quarto, penso. Mas minha alegria é interrompida quando o atendente
complementa a frase: - Mas já tá lotado.
Avril, que fizera show na cidade na noite anterior, ou Curitiba Rock
Festival? Não sei, saí de lá sem perguntar.
Andando mais um pouquinho, resolvo arriscar num hotel que, imaginei, estaria
muito acima das minhas condições orçamentárias. E não é que o hotel estava
com uma promoção, e eu acabei ficando ali mesmo? E recomendo para quem for de bus a Curitiba: fica pertinho da rodoferrô: Hotel Villaggio, ali na Rua
Tibagi. Quarto simples, mas chique. Aquele esquema de cartão eletrônico que
liga tudo no quarto. Tevê a cabo e frigobar. Banheiro com secador de cabelo.
E um luxo que eu ainda não tinha visto: ADSL no quarto. O cabinho azul ali, prontinho para o hóspede ligar o notebook e usar a net com velocidade de acesso decente. Se alguém do hotel puder receber minhas sugestões, aí vão: colocar uma lâmpada mais próxima ao desk da internet e trocar a operadora de cabo para Sky. Ah, sim, a minha tevê tava com problemas na hora de trocar os canais. Eu resolvi isso colocando a ESPN Brasil nos favoritos. No big deal.
Devidamente acomodado, volto para buscar minha mala grande, mas antes dou uma banda. Mas isso eu conto mais tarde, porque isso aqui continua...
PS: essas foram mal traçadas ao som contínuo, repetido e ininterrupto do
disco novo do Broken Social Scene.