08OUT2005
Light a candle... and continue the dance
De pouso definido, ponho-me a percorrer as ruas e avenidas curitibanas. A intenção é tomar um café, mas, claro, não qualquer café. Tô em Curitiba, quero o melhor. O hotel ofereceu o serviço, mas achei 12 mangos um pouco demais, e na manhã seguinte o mesmo café estaria à minha disposição; serviço incluído no pacote de hospedagem ("O direito ao café só se consegue após um pernoite", explicou a educada atendente). Na rua de trás, ainda quando caminhava procurando hotel, tive a impressão de ver um localzinho ajeitado que servia café. Impressão. Até servia, mas era só café mesmo, e eu queria comer. Sim, desjejum.
Dá-lhe, caminhada, então. Quase me desvio de meu objetivo inicial ao passar por uma portinhola oferecendo livros com desconto. Entrei, claro. Mas a fome me fez, ao menos desta vez, sair de mãos abanando.
Abre: uma amiga uma vez falou que não conseguia sair de loja de discos com as mãos abanando. Eu era assim também; dava um vazio imenso entrar numa loja, não achar nada do interesse e ter que sair tão pobre quanto entrei. Então, para fugir deste terrível e angustiante sentimento, eu comprava. Esse costume tem, ou tinha, o grave desabono de colocar algumas coisas bem inúteis e insignificantes em minha prateleira de CDs. Ultimamente, com o CD nacional batendo, e muitas vezes ultrapassando, a barreira dos trinta reais - e os mesmos MP3s dando sopa no Soulseek -, minhas parcas economias acabam sendo empregadas na compra de livros. De bolso, principalmente. O futuro é pocket book. Nem que seja ebook. Fecha.
Botequins, lojas de conveniência, outras coisas; nada de padaria ou café. Tô na direção errada, penso, e resolvo mudar o trajeto. Acabo avistando um shopping. Eu não resisto a um. O local encontrado é o Shopping Estação, que, pelo horário, ainda está praticamente fechado. Dou uma olhada nas vitrines e dou meia-volta. Já imagino uma visita futura ali. Acho uma padaria de aparência simpática e resolvo entrar. Peço dois salgados e um pingado, que eu prefiro chamar de café-com-leite. Vejo no jornal local uma matéria sobre o CRF, destacando Charme Chulo, Suite Minimal e Biônica, além de, claro, Weezer - as atrações daquela noite. Os salgados estavam, adivinhe, horríveis, então apressei o café com leite e tomei o rumo da rodoferroviária. Eu ainda alimentava a idéia de ir até o local do show, o Curitiba Master Hall, naquela hora, de manhã, só para fazer um reconhecimento do terreno. Fui impelido de fazê-lo pela lei que rege a humanidade: a do menor esforço. Antes de resgatar minha big mala no guarda-volumes, mais um café com leite. Até cogito mandar um pão de queijo pra dentro do bucho, mas desisto. Finalizo o 'pingado' e vou pegar minha mala.
Já faz algum tempo que não faço uma viagem longa de ônibus. Como gosto de dirigir, prefiro ir de carro mesmo, o que de quebra me permite levar várias malas/bolsas. Para esta viagem, um problema: além de ficar fora de casa durante 9 dias, eu teria que levar roupa para sair à noite, roupa para trabalhar, roupa de 'guerra' etc. Então levei uma mochila e uma mala. Acreditem, a mala é imensa. E muito pesada. Na mochila, coloquei, além do Liquid Fresh (hehe!) e umas canetas no bolso pequeno da frente, todos os cabos e demais apetrechos dos meus eletrônicos: câmera digital, celular e dois tocadores de MP3, um de CDR, outro com disco rígido. Além dos cabos e recarregadores, também 3 cases de pano para levar uns CDRs (nove dias fora, poxa!). Não era exatamente pouca coisa, mas ainda foi possível levar na mochila o equipamento de trabalho para a semana seguinte. E na big mala, as roupas, sapatos, pijamas, utensílios para higiene pessoal e banho e... um secador de cabelo. Brincadeira, claro, não levei o secador. A mala tava tão pesada - peço desculpas em insistir nisso, mas tava meeeeesmo -, que cheguei a pensar em parar numa balança de farmácia e pesá-la. Seria hilário, hein? Mas já imaginei de tomar um táxi na hora de ir embora de Curitiba.
Sério.
Devidamente instalado e vendo um fut pela tevê - campeonato alemão, sábado de manhã -, abro uma latinha de cerveja. Eu havia feito uma promessa, uma semana antes da viagem, de só voltar a beber quando chegasse em Curitiba. A promessa obviamente não se cumpriu, uma vez que apareceram duas garrafas de Bohemia Confraria em casa uns dias antes da viagem. Mas Bohemia Confraria é uma cerveja diferente, de modo que não me senti totalmente culpado. O efeito anestésico da cerveja, e me refiro à latinha que abri em Curitiba, aliado ao sono remanescente - dorme em ônibus pra você ver -, me faz adormecer rapidinho.
Acordo pouco antes das três da tarde, tomo outro banho e resolvo ir para o shopping. Qual? Qualquer um. Na recepção, pergunto pelo Mueller. "É longe", me dizem, estendendo às minhas mãos um pequeno mapa turístico da cidade. Tomo a rua e considero mais apropriado ir ao Estação mesmo. Lembra-se da lei que rege a humanidade? Então.
Sábado à tarde, shopping lotado. Tenho em mente comprar umas roupitchas. A primeira loja que chama minha atenção é uma de material esportivo - uma franquia também disponível numa cidade próxima a Americana. O uniforme 2 do Barcelona - aquele da camisa meio verde limão - está em destaque na vitrine. Dentro, a camisa 1 dá sopa. E está até mais barata. Ainda compro uma dessas. Ando mais, entro em algumas lojas, analiso promoções. O estômago se manifesta e entro na Beer Hoff. Ou seria Beer Haus? Não me lembro. Peço um chope e o cardápio e ligo o tocador de MP3 para fazer a lição de casa: ouvir uns disquinhos do Mercury Rev. A atendente me lembra que nada do que eu peço está disponível. Nem mesmo pizza! "É que a gente começa mesmo a partir das 18h", me avisa, constrangida, a pobre moça. Mando trazer uma porção de 'bratwurst', achando que seria igual à que degustei, no ano anterior, em uma casa alemã que fica no centro de Curitiba. Mesmo não sendo das melhores, a porça ajuda a embalar o ambiente. Mercury Rev e chope rolando soltos. Observo o people presente. Dá claramente para identificar os indies paulistanos: são as pessoas mais feias presentes no Estação. É claro que essa raça não iria deixar escapar de ver o Weezer.
Satisfeito de chope, ao menos por hora, pago a conta e adentro a lan house. Chamo a playlist dos clássicos no tocador de MP3 e vou fuçar no Orkut e no MSN. Um velho sábio disse, num momento de profunda inspiração, que sábado é dia de clássicos. Impressionante, nem 18h de um sábado e eu já tô bebaço. A lan house tem dois andares, e avisto duas amigas subindo as escadas (como deve ter percebido, eu estava no andar de baixo. Astúcia: 8). Uma delas é aquele tipo de mulher branquinha de cabelo preto liso. Ah, que perigo. Não sei por qual motivo, ela vem e se senta no comp ao lado do meu. Se eu fosse o Bukowski, o Thompson ou o Faustão [Wolff, não o Silva], essa coincidência descambaria para a sacanagem selvagem e animal. Como não sou, só destaco o jeito dela teclar, com um dedo de cada mão - o indicador, claro -, e com os dedinhos para cima. Mais de 18h, volto pro hotel e telefono para o Marcão, combinando uma parada para o pós-show.
Mais um banho (acredite, sou bem limpinho e cheiroso), passo um belezol e tô pronto para o show. A idéia de levar o tocador de MP3 se revela uma semigoiabice, então deixo pra lá. Como bom hóspede e turista, encho mais um pouco o saco na recepção, perguntando como chegar ao Curitiba Master Hall, Rua Itajubá, Bairro Portão. A moça me explica quaaaaaase certo. Em Curitiba, para tomar um ônibus é preciso entrar em um mini-terminal em forma de cilindro. Esses cilindros são translúcidos e os terminais são catracados. Como no metrô de SP, as próximas paradas, sempre nesse tipo de terminal cilíndrico, são anunciadas. Em Curitiba, com muito mais antecedência. O caminho até o Terminal Portão é demorado, quase meia-hora. O chuvisco, fora, e a lotação, dentro, me dão sensações conflitantes a respeito do tempo da viagem. Reconheço, pelo All Star verde, algumas outras pessoas a caminho do Curitiba Rock Festival.
Desembarcando, obviamente tomo a direção errada, mas logo me corrijo. Se não fosse pelo movimento de carros - e de cambistas e de guardadores de carro -, a rua escura passaria batida. Alguns metros a mais de caminhada e estou em frente ao famigerado Curitiba Master Hall, que antes era conhecido por Fórum. Por ser uma casa de shows, eu esperava algo completamente diferente. Talvez por estar acostumado às casas de shows de SP, capital e interior. Mas, voltando no tempo, lembro-me de quando me mostraram a 'casa de shows' alternativa de Joinville, que era praticamente uma cabana. Sério. Voltando a falar do CMH: o muro de madeira, as pedrinhas do piso e os corredores improvisados dão realmente o ar de festival ao CRF. No outro dia ainda vão me lembrar de que a antiga entrada era na rua de trás, então talvez por isso eu tenha estranhado, afinal entrei pelo estacionamento. Eu e todo o mundo, claro. Passo pela vistoria de segurança, checam meu ingresso e cá estou eu, dentro do local do Curitiba Rock Festival. As barraquinhas montadas sob um toldo branco são as únicas lembranças do ano anterior. Uma breve olhada nos CDs e camisetas e avisto a entrada do local de shows propriamente dito. Resolvo entrar.
Continua...
A trilha sonora para a redação dessas linhas foram os discos "Wrath Of Circuits" do The Nein, "Harmonies For The Haunted" do stellastarr* e "Year Of Meteors" da Laura Veirs, sempre embalados por uma xícara de café com leite ou uma latinha de cerveja.