08JUN2005
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- Tá vindo de onde?
- Americana...
A cara de interrogação do rapaz me faz arrepender amargamente de ter mandado a tal frase. Falasse ter vindo da Marginal, poah!
- Você vai ter que fazer um 'gatinho' - intervem o amigo do duvidoso. - Quebra o próximo sinal. Não tem câmera, nada, só toma cuidado. Faz um 'gatinho' e volta por onde você veio. Passa a ponte, direita, direita e você tá na Marginal.

Agradeço e faço quase como me foi sugerido. Não tem câmera, é? Passo reto, faço o retorno láááááá na frente, volto, passo a ponte, direita, direita de novo, mais uma, e tô lá. Saí daqui de Americana um pouco tarde para o show do White Stripes, sábado, 4 de junho, no Credicard Hall, em SP. Fui ouvindo um CDR com os discos da banda. Pulando algumas músicas, consegui ouvir três discos. Não imaginei chegar tão em cima da hora. Mas tudo bem.

Cheguei beeeem depois das 22h, mas ainda havia fila para o estacionamento.
- Falaram dez e meia, mas assim não vai dar, não.
Essa frase, proferida por um segurança, me tranqüilizou. Ainda faltava um chorinho para o horário inicial. Saí do estacionamento meio ressabiado: completamente lotado, tinha carros em fila dupla, no caminho, e o escambau. Tive que deixar o carro aberto, a chave no contato. Resolvi deixar a câmera digital no carro para não dar erro na revista de entrada. Admito que não foi a mais inteligente das decisões da minha vida, mas...

- Oi, ainda tem ingresso, né?
- Teeem, tem sim.
A gatinha da bilheteria me deixou finalmente tranqüilo.
- Aceita credicard, né? - é óbvio que eu não iria deixar passar essa. Credicard Hall, amigo. Pensei nessa, juro, ainda no caminho. A menina me convence a comprar pista ("tem piso superior também, mas fica muuuuuito longe do palco").
Ingresso comprado -- que facada! --, entrei, dei uma procurada pelos conhecidos, fiz o dever fisiológico e entrei na pista no comecinho do show. Não dava para ver direito a Meg, que tocava sentada e de lado para a platéia. Resolvi ir mais à frente. Parei bem ao lado de um maluco que não parava de pedir "Little Bird", embora cantasse todas as músicas enquanto pulava de um lado para o outro. Ao final de cada música, ele fazia uma espécie de posição avestruz, para recomeçar tudo de novo na música seguinte: tanto o pedido de "Little Bird" quanto a canguruzagem. Uma gatinha de óculos e muleta parou perto, e o Henry Rollins paulistano resolveu atacar. Não muito exitoso de início, aumentou a intensidade -- sim, tanto dos pedidos quanto da, digamos, dancinha --, o que me convenceu de vez a sair de perto. A garota das muletas seria vista de novo ao final do show.

- Do you hear me here?
- Do you hear me here?
Jack ia de um microfone ao outro. Pelo jeito, a acústica ou o retorno não lhe agradou, e ele brincou de João Gilberto. Mas para que buscar a perfeição acústica se se ignora os hits? Após uma seqüência de músicas chatinhas, fui finalmente colocar um pouco de álcool para dentro. Esqueço que estou num lugar de bacana. RG, carimbinho, aí sim estou pronto para beber. Chope de 500ml a 4,00$. Menos do que no show do Blur, no qual eu e Dan dividimos uma Brahma por cinco pilas. Essa foi histórica, hein, Dan? O garçom ficou pasmo quando pedimos um copo plástico. Sim, a cerveja era para duas pessoas. Volto para a pista e então vejo a gordinha mais bonita do ano, ao menos até agora. Os siblings saem do palco. Alvoroço total, os presentes pedem por um dos hits supremos.

O bis, ao contrário do restante do show, é maravilhoso. A galera 'canta' o riff matador da música pedida. Penso em uma das minhas bandas prediletas. Quando o show é de uma qualquer, tanto faz se a música é chata. Fica-se feliz quando vem uma música boa. Já quando a banda é do coração, fica-se esperando pelas músicas favoritas, torcendo para que as, digamos, nem tanto, passem rápido. White Stripes, definitivamente, nunca será uma das minhas prediletas.

Fim do show. Aguardo na entrada, agora já saída, e dou uma geral na galera. Caras tentando ser clones do Jack White, um figura com baby look do Lanterna Verde, gente feia, gente bonita. Nenhum conhecido. E o tempo passa. Os táxis eram disputados no tapa, enquanto os homens de terno improvisavam um mini-mutirão com o objetivo de persuadir os jovens presentes a puxarem o carro dali. Vi, então, a menina dos óculos e das muletas. Ela dava dois "passos", ajeitava a calcinha, que surgia fora da calça, mais dois passos de muleta, mais uma ajeitada. Para que usar esse tipo de roupa, então, hein? Mas ter encontrado essa menina me trouxe de volta à realidade: se estou vendo de novo e reconhecendo gente que nem conheço, os que eu conheço já se mandaram daqui. E assim, resignado, resolvi tomar o caminho da roça. Tudo ok, minha câmera continuava no esconderijo; fui-me. Na marginal, caminho que serve tanto pra vir embora quanto para chegar na night, a dúvida era cruel. Ir embora ou ficar e aproveitar a noite paulistana? Se ficar, aonde ir?



Sabia de antemão de um show do Uncle Marco, projeto solo do Marquinho do Butchers' Orchestra, na Outs. A única coisa que eu sabia sobre a Outs é que fica na Rua Augusta. Número, referência, direção? Necas. Mas ao menos era o único lugar em que eu, de forma garantida, encontraria conhecidos meus. Ah, que saudade dos tempos em que eu chegava na Mourato Coelho sozinho e era só pisar na calçada para rever algum amigo.

Ainda com uma forte dúvida na cabeça, e ainda na marginal, vejo num dos out-doors um rosto lindo. De mulher, claro, tá me estranhando? Vladislav Tkachiev, já descrito como "russian flamboyant", disse uma vez que basta uma bela imagem final para que se aventure por um caminho. Obviamente, ele usou outras palavras e jargões específicos. É óbvio também que jargão já é específico, mas me perdoem a repetição. Mudando um pouco a frase, eu diria que basta ver um rosto bonito para achar que a noitada pode valer a pena. E, pensando assim, encaminhei-me para a Rua Augusta. Se alguém rir à menção do nome dessa rua, não estranhe: é conhecida pela putaria instituída e arraigada. Tão logo passei a Haddock e fiz o contorno, o que eu vejo na esquina? Um Astra prateado parado, do qual sai uma baixinha já sacando o celular e partindo para mais uma, digamos, batalha.

Eu mal tinha pego a Augusta, e a Augusta já tinha me pegado. Com o trânsito mais parado que cidade baiana das 12h às 14h, fico na dúvida se estou na direção certa. E, se estou, será que vou conseguir ver a Outs ou passarei batido por ela? Quem já engoliu muita fumaça nesse tipo de inferninho indie sabe do que falo. Os locais às vezes têm uma fachada de pouco ou nenhum destaque, de forma que são difíceis de se encontrar. E o fluxo seguia, no ritmo de uma bossa nova tocada sob efeito de Lithium. Um puteiro aqui, uma padoca do outro lado, mais um puteiro, um estacionamento. Um casal bem vestido, saído de um 'grill' qualquer -- e quem disse que não há variedade na procura por carne na Augusta? -- adentra um Fusca vermelho, antigo. Pedem para cortar a minha frente. Tudo bem, Fuscas merecem. E o vermelhão arranca, buscando seu destino. Com a impressão de que vou na direção errada, observo uma galera que se assemelha à do rock e que vai em direção oposta à minha. Já pronto para dar meia volta, encontro a Outs. Só gente de roupa preta em frente. Beleza. Acho um estacionamento conveniado e paro confiante.
- Vai pra onde, amigo?
- Outs! - como é bom esbanjar confiança.
- Tá fechado.
- Tá nada, tem gente lá na frente.
- Tá fechado, tô falando.
- Posso ao menos ver?
- Claro, fique à vontade.
Desci do carro e fui até a portaria da Outs. Como ninguém tomou conhecimento da minha presença, fui entrando, até que um baixinho perguntou o que eu queria. Após confirmar o cancelamento (e dessa, gostaram? Confirmar o cancelamento), permite que eu entre e fale com meus conhecidos. Nem consegui falar muito. Estavam de saída e ainda meio atordoados com a parada toda - o show fora cancelado devido a alguns detalhes de segurança do estabelecimento. Uma pena.

Eu até pretendia tomar uma, só para não passar a noite quase em branco, mas resolvi vir embora direto. Na rodovia, ainda precisei travar uma batalha contra a neblina. Em alguns trechos eu via apenas alguns metros à minha frente. Mas sobrevivi e cá estou. Não muito são, mas totalmente salvo.





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