01JUN2005
Respeito a opinião de todos. Mas a minha é melhor.
Ainda não é inverno, mas o frio já chegou. O clima frio traz, ao menos para mim, uma melancolia difícil de explicar. Embora aumente a vontade de ficar sozinho e recolhido no conforto do lar, é nessa época que dá mais vontade de sair e sentir a noite. Tomar um vinho ou uma cerveja escura, ver shows. Dizem, alguns, que as pessoas ficam mais bonitas com roupa de frio. Eu mesmo já disse isso, mas ultimamente reparei que as vestimentas características dessa época do ano tornam as pessoas menos diferentes entre si mesmas.
Claro que sempre vai aparecer uma menina de terninho bege, um marmanjo de sobretudo azul turquesa, uma trintona totalmente coberta por couro de diferentes tonalidades etc. Mas a grande maioria das pessoas coloca uma calça simples e uma blusa. E, assim, ficam o máximo.
O terceiro episódio da saga "Guerra Nas Estrelas" ainda consegue causar uma ou outra aglomeração. Fui, tarde dessas, a um desses modernos centros que possuem duas ou três salas de exibição e tomei um chá de cadeira de quase duas horas. Fila para comprar o ingresso não havia, mas a sessão iria começar só bem depois. Com bastante tempo livre, fui checar a livraria local. Para meu deleite, a Editora Conrad lançou "Screwjack", do recém-suicidado Hunter Thompson. Livro, como define Milton Viola, é qualquer publicação não-periódica de mais de 49 páginas. "Screwjack" tem 82, contando tudo: capa, contracapa, páginas de dedicatória, de dados de índice para catálogo remissivo, expediente da editora, sumário e desenhos introdutórios para cada capítulo. Em formato pequeno, muito livro de bolso seria uma bíblia se comparado a este.
Achei o preço, 17,90$, um pouco salgado, mas o velho gonzo vale cada centavo dispendido - e seus editores devem saber disso.
Comprei, né? Peguei também uma caneca de 400ml de chope escuro e me dirigi à ala dos fumantes, que fica bem ao lado de um espelho d'água. O chope com um colarinho generoso -- cortesia do tirador de chope; uma das vantagens de ser um bêbado inveterado é que os atendentes acabam por saber de antemão as suas preferências etílicas -- incrementava sabor às descrições ácidas das loucuras de Hunter Thompson, que neste livro conta, em três capítulos, sua primeira experiência com mescalina e apresenta ao mundo um de seus pseudônimos (ou alter ego): Raoul Duke. Thompson teria dito que Duke era apenas o seu lado (ainda) mais sombrio, que roubava carros, usava drogas (muito) pesadas e também fugia da polícia.
Thompson, para os leigos, é uma espécie de Bukowski mergulhado em tonéis de bebidas e drogas. Bukowski escrevia sobre suas bebedeiras. Hunter bebia para escrever. "Screwjack" é um tipo de "O Capitão Saiu Para O Almoço E Os Marinheiros Tomaram Conta Do Navio". Mais curto, mais dark. Só não foi mais rápido que o chope. Ah, se todas as horas de espera fossem assim!
A Woxy FM, webradio preferida de gente como Árvaro Folhateen Jr, tem agora um segundo canal destinado à, segundo eles, história do rock moderno. O canal Woxy Vintage engloba praticamente 40 anos de música, ao contrário dos 30 anunciados no site. Vai dos inocentes 60s' aos dias atuais. De Velvet - sim, o Underground - a Bloc Party.
Há uma preocupação em não veicular apenas os hits, o que é ótimo para, por exemplo, indies da Era Trama poderem conhecer as referências pré-Lúcio Ribeiro. Agora mesmo, por exemplo, tá tocando "Waterfall", dos Stones. Abre parênteses: Stones, no meu caso, são os Stone Roses. Fecha. Ou seja, nada de "I Wanna Be Adored" nem "Elephant Stone".
É possível ouvir a rádio através dos formatos MP3, Windows Media e também o inovador aacPlus - que promete qualidade estéreo de CD em transmissão streaming. Para ouvir em MP3, basta qualquer versão do WinAmp ou qualquer outro tocador correlato. Já para o aacPlus é preciso a última-novíssima-atualizadérrima versão do Windows Media Player - que eu, particularmente, acho uma bomba.
É curioso notar que a rádio tem tantos ouvintes brasileiros que até providenciou uma chamada em português, na bela voz de Juju Stulbach da banda Mosquitos.
Uma das coisas boas do frio é o chope escuro. Cerveja escura é boa também, mas por favor não confunda com malzbier. Lembro que por volta de 1996, durante o frio, claro, eu sempre parava no caminho, antes de chegar à faculdade, e tomava três copos. Ajudava a suportar a aula com um certo professor portuga. Nessa época, também, eu e meu camarada supremo Altieres costumávamos tomar um chope escuro como aquecimento para os shows que iríamos ver. Isso em SP, capital. Prometi ao amigo de levá-lo para tomar o chope ali no caminho da aula. O tempo passou e o local nem existe mais. Ao menos não como era naquela época e nem tem mais chope escuro.
Neste momento, vendo o jogo pela tevê, saboreio uma garrafa de 600ml da birra Baden Baden, produzida artesanalmente na serrana e fria Campos do Jordão. O rótulo diz que se trata de uma pilsen crystal, de teor alcoólico de 3,8% e que funciona melhor com carnes brancas, peixes ou massas leves. Bullshit. Vai com paçoquinha Cossari e pão-de-queijo da padoca mesmo. E, nisso, voltamos ao título lá de cima: respeito a opinião de todos. Mas a minha é melhor.