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O Pianista 13.MAR.2003 Ludwig de las Nieves
Falemos então sobre o novo filme do Polanski, Pola para os íntimos.
Wladyslaw Szpilman (as mulheres polonesas devem ser tão feias que os homens acabaram criando fetiche pelo Z e pelo W) era um judeu pianista na Europa da WWII (Segunda Guerra Mundial). O filme, baseado no livro homônimo que Szpilman escreveu logo após escapar com vida do Holocausto, começa com Wladek (o equivalente a Wladinho), interpretado por Adrien Brody e seu imenso naso, tocando Chopin numa rádio de Varsóvia, quando uma bomba explode.
A capital cai sob domínio alemão e as coisas vão degringolando. Os judeus voltam a ser obrigados a usar o Jüdenfleck e são confinados em um gueto, do qual praticamente não podem sair.
Eu achei ruim:
1) os soldados alemães falarem em alemão; essa prática é muito comum em filmes europeus sobre o tema. "Berlim-Jerusalém" ("Berlin Yerushalaim", 1989) é um bom exemplo. É marcante a cena em que, ao chegar na Eretz Yisrael, um dos refugiados para de falar alemão e começa a falar em inglês, saudando os já instalados que os acolhem. Perguntado, ele diz "eu me recuso a falar em alemão".
Em gibis, essa caricaturização (opa, isso não foi um trocadilho!) foi bem explorada em "Maus", de Art Spiegelman, em que os alemães são gatos, os judeus, ratos. Sim, há um Vladek lá também. Voltando, algumas falas em alemão não foram legendadas. Eu entendi quase tudo, mas quem não fala alemão talvez tenha pastado um pouco. Os judeus do filme não falam iídiche (prática comum desde a Idade Média em países em que o Estado não garantia direitos iguais aos judeus) nem tampouco polonês, então eu acho desnecessário colocar os soldados falando alemão;
2) o judeu colaborador, aquele que salva Wladek do trem que leva ao campo de concentração, não precisava daquele bigodinho à la Hitler;
3) tá certo que quase todo mundo que escapou naquela época escapou por um triz, mas é um pouco chato, mesmo no cinema, o cara escapar porque o prédio explodido foi o do lado, o judeu escolhido pra morrer foi o de trás, a rua vasculhada foi a da frente. Em "Filhos da Guerra" ("Hitlerjunge Salomon" ou "Europa Europa", de 1990), que conta como Salomon Perel escapou do Holocausto, é a mesma coisa. O então jovem Sally, com seu imenso conhecimento lingüístico -- fala polonês, russo e alemão --, primeiro ajuda os russos. Depois, capturado pelos nazistas, se diz lituano e entra para a Juventude Nazista para ajudar a interceptar mensagens de rádio dos russos. No final, só não morre porque seu irmão desembarca do trem, que veio do campo de concentração, bem na hora em que um outro judeu iria disparar a arma que está encostada em sua cabeça.
O Filme fica um pouco arrastado depois que Szpilman (preste atenção: Wladyslaw Szpilman toca piano, é judeu e tem o apelido de Wladek. O filme é sobre ele) foge do setor de trabalho. Na maior facilidade, aliás. Ele joga o Jüdenfleck num jarro d'água, coloca o chapéu e sai andando.
A claustrofobia do pianista, escondido em endereços da resistência, outra prática comum naquela época, me afetou de forma muito mais intensa do que a qualquer outro espectador: eu estava morrendo de vontade de ir ao banheiro! Era o Wladek lá na tela sem poder fazer qualquer barulho pra não ser descoberto, e eu na poltrona sem poder me deslocar ao banheiro pra não perder nenhum trecho do filme -- e pra vontade não aumentar.
Quando Wladek adoece e sua antiga amada Dorota leva o médico para vê-lo, eu quase fui à loucura.
Bom, como é de se esperar, o tal de Wladek escapa. Claro, senão como teria filme? Escondido num escombro de hospital, é descoberto por um oficial alemão, que não o mata. Ao saber que Wladek é pianista, pede que toque. Engraçado como o piano tenha sobervivido às bombas, mas lá vai Szpilman e "quebra tudo". É interessante a frieza com que o oficial alemão ajuda o seu inimigo, mantendo-o vivo e trazendo comida e roupa.
Embora legendada, a parte mais "engraçada" do filme passa batida à maioria do público. Ao saber que o "judeu" se chama Szpilman, Wilm Hosenfeld - o oficial alemão, que, aliás, tem sobrenome de judeu - dispara:
- Um bom nome para um pianista.
Explico: Szpilman tem a mesma pronúncia que Spielman, que em alemão significa, em tradução livre, "quem toca".
Os russos chegam, os alemães se vão, e Wladek caminha sobre os destroços do que sobrou de Varsóvia, uma cena de rara poesia cinematográfica. Infelizmente, o filme já corta pra Wladek voltando à rádio (que está do mesmo jeito de antes da bomba... curioso, não?), de terno engomado e tocando Chopin. Eu particularmente gostaria de saber como fez Szpilman pra se rearranjar depois de ter perdido tudo. Ao menos isso "Berlim-Jerusalém" tinha de bom.
Dizem que Spielberg foi acusado de 'glamourizar' o Holocausto em "A Lista de Schindler". Polanski, ele mesmo um refugiado -- escapou ficando escondido em uma fazenda de católicos em Cracóvia --, jamais poderá ser acusado disso. Com "O Pianista", Roman vasculhou e mostrou as profundezas do confinamento a que um judeu foi obrigado a passar pra escapar da morte durante a Guerra.
Ludwig jura que é judeu. Mas depois jura o contrário.
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