Alexandre Matias
ex-Conrad e ex-revista Play

27.FEV.2003
Rodney Brocanelli






Play: uma autópsia

O fim da revista Play, editada pela Conrad, foi uma das más notícias do finado ano de 2002. Pode parecer apenas mais uma dentre várias que assolaram o mercado editorial brasileiro desde o início da crise que atingiu as empresas de mídia logo após os atentados nos EUA. Porém, a retirada desse título das bancas é realmente algo para se lamentar e muito. Sua proposta era uma das mais originais e interessantes que surgiram nos últimos anos: falar de tecnologia (e nesse balaio entra games, internet, etc), mas com um viés pop, procurando uma linguagem acessível aos seus leitores. No começo muitos torceram o nariz, pois houve a expectativa de que o enfoque fosse mais direcionado à música. Afinal, a ShowBizz tinha acabado de ser extinta e aconteceu um frisson natural em torno de alguma outra publicação que pudesse substituí-la. Alguns jornalistas desavisados "venderam" a Play como essa substituta, o que não era verdade. O projeto editorial contemplava sim a cobertura da área musical, mas não do modo tradicional que sê vê por aí. Passado o susto inicial, a revista foi encontrando seu espaço e vinha conseguindo uma marca expressiva de 30 mil exemplares vendidos por mês.
Dentro do "pacote", foi colocado no ar o portal Entretenimento Eletrônico, que seguia a mesma linha, com noticias e entrevistas exclusivas, mas cometendo um erro: não trazer o mesmo conteúdo da Play que ia as bancas. Deixando de lado esses problemas, do ponto de vista jornalístico, o resultado era bacana. Quem estava no comando era o jornalista Alexandre Matias, conhecido por ter uma seção dominical sobre cultura pop no jornal campineiro "Diário do Povo". Ele se transferiu para a Conrad e logo foi dado a ele o cargo de editor da revista. Porém, quase um ano após assumir, Matias acabou sendo afastado do comando desse projeto devido a divergências internas. Mesmo com sua saída, a esperança era de que a publicação prosseguisse sem ele, mas só durou apenas mais um número e foi retirada do mercado pela Conrad. Existe a promessa de retomá-la no futuro, mas isso se a crise deixar. Nessa entrevista realizada por e-mail, Alexandre Matias explica um pouco mais dos motivos que o levaram a ser saído da Play antes de seu final . Hoje, ele publica seus textos no site Trabalho Sujo e faz frilas esporádicos. Um aviso: está sendo respeitado o modo como ele mandou de volta o questionário, com abreviações da palavra "que", além de outros maneirismos, como falta de acentos. (Rodney Brocanelli)


3am - Você declarou ao zine Esquizofrenia, entre outras coisas, que editava a Play mecanicamente, uma vez que a revista é um projeto do André Forastieri. Além disso, na mesma entrevista, você fez críticas surpreendentes: "a Play foi uma revista mal planejada, lançada de qualquer jeito nas bancas, sem publicidade, nem nada", é uma delas. Não teria sido melhor você sair antes que a coisa chegasse ao ponto que chegou?
Alexandre Matias -
Nao, pq eu não queria sair. Eu achei q a revista poderia mudar desde q eu comecei a engrossar o meu lado da linha editorial. Claro q, depois q assumi essa postura, imaginei q iria enfrentar alguns obstaculos no meio do caminho, mas nao achei q minha demissao foi justo o primeiro deles :)

3am - As constantes comparações com a finada General incomodavam? E como vocês encaravam as cobranças para que a Play fosse uma revista de música?
Matias -
Isso eh normal, as pessoas precisam de referenciais... A Play nao tem nada a ver com a General, soh o fato de ter sido publicada na mesma editora.

3am - Mesmo com tantos problemas apontados por você, a Play não deixou alguma coisa de bom no mercado editorial?
Matias -
Claro q sim. O meu problema com a Play foi pessoal, eu tive q abrir um espaco na marra, para me satisfazer pessoalmente. E isso interferiu no projeto inicial da revista. A revista tem merito de comecar uma nova etapa no mercado de revistas pop, ao lado da Zero, da Simples, da revista da MTV e da Frente.

3am - Há algum tempo, o site Observatório da Imprensa trouxe um artigo do Augusto Salles (do zine Falaê) reclamando de que os artigos da Play não eram publicados no site Entretenimento Eletrônico. Vocês da Conrad nunca pensaram em responder a esse texto?
Matias -
Acho desnecessario. Esse tipo de polemica eh boba, soh satisfaz o ego dos envolvidos. O cara foi lah, falou o q achava e pronto. Nao tem pq ficar defendendo ou atacando.

3am - Faço a pergunta agora: por que o Entretenimento Eletrônico não trazia os textos da publicação impressa? Essa pergunta é pertinente porque numa entrevista anterior, você declarou que "a antes eterna briga entre papel e meios eletrônicos parece ter sido encerrada".
Matias -
Por uma questao estrategica obvia: fazer o leitor do site procurar a revista e vice-versa.

3am - Dentro dessa questão estratégica óbvia não se pensou em colocar o conteúdo da Play meses depois seu lançamento em bancas? A perecibilidade da revista em papel não justificaria isso?
Matias -
Nem a perecibilidade, pq o meu conceito de revista eh aquela q nao fica velha, q pode voltar a ser lida, como referencia. Com as mudancas nas comunicacoes (e nao estou soh falando de internet), a funcao dos jornais e das revistas esta mudando. E se o jornal estah se tornando um veiculo de analise dos fatos do dia-a-dia (mais do q um disseminador de noticias, cargo assumido, de vez, pela internet e pela televisao), a revista esta procurando sua nova funcao. Muitos apostam em servicos - acham q a revista deve prover informacoes q sejam uteis no dia-a-dia do leitor. Veja a banca de jornal, ela esta deixando de ser um centro de informacoes pra se tornar uma mini-loja de conveniencia - hj vc compra discos, picole, chaveiros, charutos, papel higienico, gatorade, fitas de video, cerveja etc... Eh natural q abra espaco para publicacoes do tipo guia (de compras, de episodios de seriados, de ruas, de saude, etc...) e catalogos de produtos. Mas, por outro lado, ha uma demanda por uma informacao nao-perecivel e eu queria q a Play se encaixasse nesse meio. Por isso, nao colocamos os txts da revista no site - apenas alguns, como aperitivo. Mas com o tempo, colocariamos. Era soh uma questao da revista se estabelecer no mercado. Outro problema eh q a equipe da revista e do site era composta por três pessoas, alem de mim. O q demandaria parar a rotina da Play para atualizar os numeros anteriores, esse tipo de coisa...

3am - Você acha que a não-resposta ao artigo foi uma oportunidade perdida de se debater a questão de revistas e jornais já estabelecidos colocarem ou não seus textos na Internet? É o tipo da coisa que afugentaria o leitor?
Matias - Acho q nao, nao respondi - e essa foi uma decisao minha - apenas para não alimentar uma polemica vazia em cima de uma critica valida, mas boba. Acho q o leitor de cada publicacao pode avaliar o q a mesma quer a partir do momento em q ela nao coloca o seu material impresso na versao online. No caso da Play, como te disse, era obvio: fazer com q os leitores procurassem conhecer a revista.

3am - Quais os seus projetos a partir de agora?
Matias - Descansar ate o fim do ano (N. da R.: a entrevista foi realizada no final de 2002) e fazer algumas coisas no meio do caminho. Nada de concreto, por enquanto.


Rodney é atualmente uma sumidade no meio blogueiro nacional