Gilberto Custódio, do Esquizofrenia Zine
20.FEV.2003
Sig




Ele é O Indie. Esqueça Luciano London Burning, Lúcio Ribeiro e afins. Talvez, talvez Rodrigo Lariú ou Ivo Escóssia - em seus tempos de ativista - poderiam ser comparados a Gilberto Custódio, uma sumidade em se tratando de ícone indie.
Nos dourados anos 90, Gilberto foi zineiro famoso, 'saindo' em tudo quanto era [ublicação de música que tivesse ao menos um dos olhos voltados à vanguarda, que, ao menos naquela época, tinha entre um de seus nomes o famigerado termo indie.
Em 2002, já um habituè das festas que fizeram a fama de seu irmão, Gilberto voltou a fazer zine - tanto de papel quanto eletrônico. O nome? Esquizofrenia, o mesmo de antes. Após alguns entreveros com a HPG, host da primeira fase eletrônica, o Esquizo parte para um domínio próprio (clique para abrir uma nova janela em seu navegador: »»»»» ). Leia abaixo a entrevista exclusiva com Gilberto Custódio.
A entrevista foi feita via email. As perguntas estão em negrito. As respostas de Gilberto estão em tipo normal.



3am - Primeiro. Você criou o Esquizofrenia nos idos de 96, fez alguns zines que viraram lenda, ficou conhecido e... parou de fazer zines. Por quê?

Gilberto Custódio - Opa! Foi no final de 93 que o zine nasceu. No editorial do Esquizofrenia # 9 eu explico mais ou menos a razão de ter parado de fazer o zine. Vou fazer um copy and paste: “Em 96 o número 9 do Esquizofrenia estava 80% pronto. Muito texto, muito conteúdo. Mas eu não tinha mais saco para diagramar, editorar, revisar, xerocar, dobrar milhares de folhas, grampear, gravar fitas, distribuir, responder cartas, ir quase todo dia ao correio e outras tarefas ingratas do zineiro. Eu gosto é de escrever! Por isso o fanzine morreu. Acho que no final de 96. Passei a publicar meus textos em outros lugares. Mas eu sou completamente apaixonado por fanzines. Não consegui ficar parado por muito tempo. Em 97 montei o Campo Magnético, um zine mais modesto, com 12 páginas dedicadas à cena indie nacional. Tinha necessidade de divulgar as demos que chegavam pelo correio. Infelizmente o Campo Magnético só teve uma única edição. Lembro que na época estava fazendo cursinho. Devo ter parado com o zine para me dedicar aos estudos. Logo depois entrei na faculdade e aí esquece. Nunca mais voltei a fazer zines”. Agora eu voltei a fazer zines porque depois do expediente as vezes eu fico sem ter o que fazer.

- Segundo o André Forastieri, o Esquizofrenia deu um furo de reportagem ao descobrir que Isabel Monteiro era a vocalista brasileira do Drugstore. Como você conseguiu esse furo?
Nossa, isso faz tempo! Na real, essa história é a seguinte: uma coisa comum aos zineiros que trabalham de dia é ver o coitado, num dia de semana, passar da meia-noite fechando envelopes, grapeando zines e escrevendo cartas sabendo que, dentro de poucas horas, ele vai ter que ir trabalhar. Era isso que acontecia nos meus momentos workaholic. Numa dessas madrugadas, eu estava ouvindo o programa do Kid Vinil na Brasil 2000 enquanto trabalhava em favor do zine, quando ele falou algo sobre uma banda inglesa com uma vocalista brasileira, jogou algumas referências que certamente me agradaram e eu, como estava na minha escrivaninha, com caneta e papel, aproveitei e anotei o endereço. Bolei algumas perguntas, as enfiei num envelope junto com uma cópia do zine e mandei no dia seguinte. Semanas depois eu recebo em casa um envelope com os dois primeiros singles 7” – os únicos até então – e as respostas das perguntas, além de fotos, adesivos e outras coisas fofas. Publiquei a entrevista no número 5 do Esquizofrenia. Devido a esse “furo de reportagem”, o zine conseguiu repercurtir muito na mídia e houve um aumento considerável de leitores. Mas quem fez o verdadeiro furo foi o Kid Vinil. Como sempre.

- Mesmo sem fazer zines de papel, você sempre continuou com prestígio entre os indies. Para o grande público, contudo, você meio que sumiu. Ao voltar à vida de zineiro, você não tem receio de ter desenvolvido um estilo que fala somente com e para os indies?
Pode ser. Às vezes eu acho que abuso de referências obscuras, mas não é algo proposital, eu apenas escrevo tendo como base MEU universo musical. Não tenho como usar referências mais mainstream, porque eu mesmo as ignoro completamente. Lógico que eu gostaria de atingir um “grande público”, mas não gostaria de ter que mudar meu estilo. Mesmo porque é muito difícil. Eu escrevo rápido, geralmente ouvindo o disco ao mesmo tempo. Os textos são sinceros e refletem exatamente o que sinto. Não dá pra maquiar depois pensando: “ah, agora preciso deixar esse texto fácil para o mano que ouve Weezer o dia inteiro e o ouvinte da 89 FM conseguir ler”.

Aliás, você é daquele zineiro que espera emails e cartas dos leitores ou é um desencanado que prefere simplesmente suspeitar quantas pessoas conhecem o teu trabalho e o que acham a respeito dele?
Eu simplesmente adoro chegar em casa e ter aquele monte de envelopes cheio de surpresas dentro. Antes era bem mais comum, recebia em média umas 3 ou 4 cartas por dia, além de fitas-demo e outros zines. Eu adorava receber tudo. Com a chegada do e-mail, a coisa mudou bastante. Mas respondendo sua pergunta sem rodeios: eu olho as estatísticas do site diariamente e baixo os e-mails diversas vezes ao dia. Lógico. Esse tipo de retorno é a minha maior motivação.

- Gostaria que você comparasse o meio alternativo brasileiro de 1996 com a cena indie de 2002.
Em 96 os indies eram chamados de guitar e o único lugar para sair e ver ótimas bandas novas ao vivo era o Retrô, em São Paulo. Infelizmente não sei quanto ao restante do Brasil. Com a chegada da Internet, a cena ficou mais globalizada e o termo indie passou a ser usado – às vezes mais como xingamento do que qualquer outra coisa – para descrever pessoas que curtem guitar bands em geral. Hoje em dia temos disputa de “eu sou mais indie que você”, o que é uma perda de tempo incrível. Mas junto com a modesta popularização do termo, criou-se também uma cena maior, com mais público, mais casas noturnas abrindo espaço para o estilo e bandas novas surgindo toda hora. Em 96 costumávamos ter bem mais fanzines em papel também. A camiseta listrada e as franjinhas caíram em desuso. Agora o visual predominante é o dos Strokes. O All- Star ainda reina, assim como roupas da Adidas, incrivelmente populares em ambas as épocas. A maioria dos DJs ainda continuam tocando sets inteiros com os mesmos HITS de 96, o que é deprimente. Em 96 a moda anos 80 não era tão glamourizada como hoje em dia. Em 96 os indies eram alvos dos carecas – eu mesmo uma vez tomei um belo de um murro no meio da cara – talvez pela proximidade com os góticos, que freqüentavam as mesmas casas noturnas. Mil coisas.

- Você sempre foi um grande comprador de CDs e demos. Ainda compra muita coisa? Ou o gravador de CD é o seu atual melhor amigo?
Eu comecei a trabalhar aos 14 anos para poder comprar discos. Dez anos depois eu continuo gastando uma boa porcentagem de meu salário com música, provavelmente mais do que um consumidor normal. Eu também uso bastante o gravador de CDs e defendo a pirataria. Afinal, com a libra passando dos cinco reais, é meio insano gastar os olhos da cara por um CD inglês quando você entra no Soulseek e encontra tudo de graça. A capa, encarte e o escambau não valem o preço.

- Queria que você citasse duas bandas -- uma nacional, outra gringa -- que, quando ouviu pela primeira vez, parou e pensou "meu Deus! Isso é maravilhoso."
Eu fiquei de cara quando ouvi o primeiro LP do Killing Chainsaw. Porque foi o meu primeiro contato com as guitar bands nacionais que cantam em inglês e se parecem com tantas outras de fora, bandas que, mesmo sem muita identidade, são infinitivamente melhores do que as bandas de rock nacional que compõe o mainstream. Esse LP do Killing Chainsaw eu considero um clássico. Eu ouvi muito ele, na época mais do que meus discos do Sonic Youth, que diziam serem tão parecidos. Outro disco que me deixou boquiaberto foi o primeiro do Pelvs. Eu ficava muito entusiasmado com o aspecto caseiro da gravação e capa. No âmbito internacional, um disco divisor de águas para mim foi o debut do Blueboy. Na época eu estava ouvindo muito as bandas shoegazing, muito britpop também. Aí o Cristiano do fanzine Make No Sense me entregou a fita desse disco, dizendo que eu ia gostar bastante. Ele acertou em cheio. Dedilhados de violão, letras tristes, pianos, uma coisa que eu fui descobrir ser o verdadeiro indiepop. Através do Blueboy eu descobri a Sarah Records. Tinha uma loja em São Paulo, a Mo’ Better, que tinha diversos singles e álbuns da Sarah. Um paraíso. Passei a ouvir muito indiepop depois do Blueboy.

- A versão online do Esquizofrenia traz alguns textos bem longos. Você não acha que a internet, de um modo geral, está fazendo com que os textos sejam cada vez mais curtos? Por outro lado, ter liberdade de escrever um texto sem a preocupação do tamanho que vai ter sempre foi um sonho de todo zineiro. Não há um paradoxo nisso?
Ah, sei lá. Eu escrevo no Word sem muito stress. Não fico pensando se vai ficar grande ou não, simplesmente sento na frente do micro, boto o som, abro a Internet pra buscar alguma informação interessante e mando ver, sem me preocupar com tamanho nem nada.

- Você nunca pensou em ou quis viver exclusivamente escrevendo sobre música?
Claro que já. Principalmente nos dias de terror na empresa. Eu sou administrador comercial e fico lidando com números, tabelas e gráficos o dia todo. Isso cansa. Mas eu já parei pra pensar e percebi que se eu fosse escrever o dia todo, ia cansar também. E eu ia ganhar bem menos. Isso é, se conseguisse um emprego. Porque o foda é que essa área do jornalismo cultural/musical é muito fechada, cheio das panelinhas, tem que ficar fazendo média na balada com pessoas irritantes, tem que ficar indo atrás de serviço toda hora, é um tipo de serviço que não te dá uma segurança profissional. Você não consegue planejar nada no campo pessoal porque você não sabe como estará de grana dentro de um ano. Eu pensei que essa área fosse melhorar com a Internet, mas vejo que a melhora foi insignificante. Eu optei por administração porque 1) eu gosto – não morro de amores, mas gosto, 2) existe emprego e 3) os salários são bem melhores se comparados ao de um jornalista. Mas se eu ganhasse bem pra escrever sobre música, eu largaria meu emprego na hora.

- Além de crítico musical, você também tem uma banda e uma adormecida carreira de promoter indie. O que é mais legal: escrever sobre música, tocar ou organizar uma festa?
O mais legal é ouvir música. O resto é conseqüência. Mas de todos, o que menos gosto é de organizar uma festa. Dá muito trabalho e é estressante pacas. Mas é o que tem o melhor retorno financeiro. Se você souber fazer a festa lotar, lógico. Porque não é fácil.

- Hoje você já virou o "irmão do Márcio" ou os dois ainda têm o mesmo nível de fama e prestígio? hehe
Hoje eu sou o “irmão do Marcio” e quando se referem a Custódio logo pensam nele. É engraçado, porque antes era o contrário. Mas o Marcio é mais simpático e social do que eu, conseqüentemente é muito mais “pop”. Sem contar que ele vive na balada, distribuindo flyers de seus projetos. Muita gente o conhece.

- Você acredita na possibilidade de um e-zine acabar virando um grande site, uma revista eletrônica, ou isso é sonho? O que você vai fazer quando e se isso acontecer com o Esquizofrenia?

Eu não conheço nenhum e-zine que tenha virado um grande site ou revista eletrônica. Digo, nenhum e-zine que siga uma linha editorial parecida com a do Esquizofrenia. Mas na Internet tudo é possível. Se algum dia isso vier acontecer com o Esquizofrenia, eu vou aceitar numa boa. Porque se isso vier a acontecer, é porque indie definitivamente estará na moda. Aí eu vou aproveitar a onda e vender o e-zine por um preço absurdo a algum investidor visionário. Vou sorrir quando a moda passar e gargalhar ao ver os editores botando RPM na capa, publicando resenha do show do A-Ha e criando uma retrospectiva do Raul Seixas numa tentativa desesperada de aumentar o tráfego do site.

- O que você faria se, ao acordar numa bela manhã de outono, descobrisse que havia se transformado num fã do É o Tchan?
Pois é, né? A primeira coisa que iria fazer... Olha, certamente iria sair depois do expediente com o pessoal que trabalha comigo. Finalmente ia poder ir nos tão falados happy hours sem ficar mal-humorado e com vontade de ir embora. Fazer happy hour é essencial para quem quer crescer dentro de uma empresa, pois é em mesa de bar da Vila Olímpia, com É o Tchan rolando ao fundo, que saem as grandes decisões empresariais e onde você cria a rede de contatos que lhe será muito útil quando você quiser saber as fofocas, como quem tá comendo quem, quem vai ser mandado embora, as oportunidades que surgem etc. E nisso o É o Tchan rolando ao fundo, uma galera acompanhando a letra e eu rindo e acompanhando junto. Uau, seria o ápice de meu convívio social. Aí é só saber quanto foi o último clássico do futebol, quem saiu do último Casa dos Artistas e apoiar o FHC/Serra e pronto, talvez seria até promovido a gerente.


Sig é o editor dessa coisa toda chamada 3am